Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

a anatomia da decisão

sei que podia apenas ''assistir-te''. daqui para a frente: sem mais complicações: sem mais silêncios mortais. mas há aqui uma ponte que a adolescência febril não me permite construir. para ser preciso não sei ao certo como lhe hei de chamar, mas anda à volta de "Ponte do Cumprimento da Disciplina". falta-me tanto. falta-me demais. serias um verdadeiro teste à conduta de ser; uma prova de que há um propósito para isto tudo; um jogo de lógica-irreal embebido em pesadelos ininterruptos, sei lá. teima em não chover e nem os braços da mãe me salvam disto tudo.

Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

conversas com Levi

"a noite é a forma de disciplina mais negra que existe" disseste-me um dia.
e sim, a madrugada fria é um puzzle terrífico. sei sempre que não te vou encontrar por muito que cruze o Bairro. a culpa não é, efectivamente, minha: sei todos os trajectos de cor (embora reconheça um certo vício nos caminhos que tomo, mas a força das circunstâncias impede-me de demorar menos tempo); conheço cada atalho ao pormenor, cada sítio certo para atravessar a estrada e poupar meio segundo; mas mesmo assim, é-me impossível chegar-te a horas. é O Medo, que é outra coisa qualquer, que são muitas coisas. e nestas vidas de acordar ainda de noite, de sair cedo para enfrentar o caos dos loucos do Oriente, (de onde um dia partiremos), admito que me perco dos teus braços frágeis. esqueço-me de onde te encontrei e só me tenho a mim, posto à beira rio, a cismar intermitentemente na Verdade - como se fosse tudo um retrato qualquer, uma dimensão emoldurada de que me distancio a passos vagarosos. o Sol roça os contentores vazios e os grotescos braços mecânicos que elevam o metal-viajado até aos grandes cargueiros, hoje ausentes do horizonte. o Sol nasce e revela-nos as caras uns dos outros: espelhos de dignidades mórbidas que retratam o que nunca fomos e o que nunca chegaremos a ser.

Domingo, 19 de Fevereiro de 2012


nunca entendi se em mim moram histórias
ou outros mundos quaisquer.
nunca entendi,
(nem procuro entender),
se [isto] são só palavras que me assombram
ou resquícios de uma sutura infeliz;
se é uma compreensão qualquer das coisas;
e que coisas são estas?

os dias desenrolam-se
e o mundo acontece
como o oceano mascarado de mãe
a deitar-se nos braços da areia
do inverno presente.


Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

μικρό

assombra-me sempre o reinado da noite.
assombra-me ao mesmo tempo que o fazem
as palavras inúteis e infantis de as sentir pequenas
e tortas e tanto mais que me envergonho de dizer.

e o pânico chega a ser tanto
que me atropelo em orgias de errante
pelos pecaminosos caminhos da consciência.
e este sabor terrivelmente amargo,
misto de culpa e de rendição
de me deitar às covas que vou cavando
na terra bruta que falta em engolir-me,
para que dela nasça uma sombra qualquer
de uma pessoa boa ou má,
que interesse e que importe existir,
que não seja um candeeiro aceso na noite,
iluminando um caminho virgem
que nunca foi dar a lado nenhum.


Domingo, 5 de Fevereiro de 2012

Roedel e a pausa no ordenar dos objectos

o jazz irrompe pelos feixes de luz da lúcida solidão nocturna de todos os que se aventuram pelas ruas invernosas da cidade: digo-vos adeus. faz tempo que não chove: o frio confere uma alegria pútrida aos dias. é como se o Inverno fosse todo mentira, é como se faltasse a água para vir lavar o alcatrão negro dos fumos tóxicos dos veículos para nos livrar de sermos embalsamados vivos pela poluição-indiferente. sim, continuas aqui, ao monte, como os casacos pendurados atrás da porta que já dobram o número de cabides: uma tulha de cheiros ímpares e de saudades eternas que vão e que voltam sempre como o espírito jovem das nossas almas desnorteadas de qualquer amor-possível ou inteligível ou o que quer que o valha.

sabes quando as frases ficam longas, a pontuação se perde no caminho e deixas de saber o caminho para casa?

crio para mim um doce averno de sexo oferecido e tudo quanto ouço é o som do piano na sala, ao longe, a exigir mais do silêncio da casa, numa batalha eterna entre a luz e a escuridão, o fumo e carne, o sangue e a água! e quedo-me aqui no Leito das Sombras, apavorado com a tua silhueta desenhada a negro, a contemplar-me tão lá de cima, estampada nos contornos da luz branca. em pânico, abro o Livro da Técnica em busca de qualquer coisa que me ensine a lidar com assombrações destas. abro-o somente para descobrir que nunca soube o que ele era e que à noite, a espécie humana é assaltada por um relativismo-romântico-inebriante que adormece as almas e as toma numa loucura despreocupada.


Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

rever

estes prenúncios de dor:
o deambular incessante e paranóico da gata pela casa,
o excesso de claridade reflectido em todas as paredes,
os gritos do vagabundo pousado nas prateleiras
que me aguarda para me contar vãos segredos,
a cabeça quente do Inverno frio:
estados de alma em emergência de sentir tudo
e de em tudo se perder embriagada
nas noites que deviam ser verão.

é como se o Inverno já não fosse triste:
é como se já não fosses voltar para casa.

o Jabez cabrão, aos berros
de já não lhe doer nada - ou sei lá.

e o Tejo que não tem sido sangue suficiente,
- escrever só mentalmente -
definhar entre as fotografias polariodianas
de beijos anónimos a vinho e ópios e químicos andróginos demais:
escravo podre e cão de uma anatomia de vida incontrolável,
braços e pernas e membros - tudo torto e fracturado!
cheiro a mentira como o diabo cheira ao fogo ardente!
e com ele, ardo na vastidão de ideias mórbidamente geniais
que me assaltam quando caminho só e absorto,
fitando a calçada tão esburacada
quanto o meu coração-casa-de-espelhos de uma cor qualquer.

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

posto no lugar

hoje sonhei que me davam uns quantos tiros no corpo. uns quantos: pescoço, do lado direito, enterrado por baixo da clavícula; língua, mesmo na ponta, com um buraco quente que me furou literalmente o músculo; coxa esquerda, espasmos e choques que me impediam de ficar de pé. deixei-me cair no chão feito pedaço de carne podre, abatido, perdido em fracasso e prestes a expirar - espírito ou sombra. e falavam à minha volta num tom verdadeiramente elevado que me fazia doer e estremecer os miolos. os enchapelados decidiam se me haviam de matar ou deixar assim. e tudo aquilo numa magnífica indecisão tremenda que me deixava ali a aguardar em agonia até quando o espírito de uma daquelas duas ou três almas mafiosas decidisse atirar à minha cabeça. em boa a verdade , deitado no chão, de lado, tive a sensação do cano ainda quente apontado à minha cabeça: como se desenhasse uma linha mágica no ar, um fino espectro de morte certa e absoluta. garanto-te: sentes o verdadeiro paladar da morte, o espasmo de a seguir teres desaparecido, o pânico genuíno e primitivo da consciência do teu último momento. o saber que ainda estás vivo antes mesmo de cair morto - tudo tão próximo do chão. e acordo para um morno início de tarde de inverno, depois da manhã sempre nocturna e falsa: vou ter pouco sol para conseguir colocar alguma coisa nova debaixo dele.

Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

ainda existem cerca de 19.500 armas nucleares activas, o suficiente para destruir a Terra várias vezes

é tão cedo e eu estou tão cansado. dói-me o mundo de dentro, mas dói-me em nojo de não saber senti-lo doer. dói-me este vazio embrutecido, este vazio total e absoluto de ser só pele mole a repousar sobre as mais variadas superfícies do meu quarto (e não são assim tantas!). dói-me tanto que nem chega a doer. e escrevo sobre isto como se fosse fácil, como se escrever fosse fácil; como se a dor fosse um capricho qualquer a que me proponho alegremente, emitindo ondas cheias dos meus sorrisos faustos: ondas de uma morte rústica: eu-qualquer perdido no Interior Remoto: e, abatida a carne pelas rochas lilases, pelo sol ardente, pelos bichos curiosos e pela noite fria, recordo com o auxílio da sôfrega memória os vários tipos frio que fui sentido ao longo da minha vida para perceber que todos eles foram e vieram - ímpares retratos ardentes de dor pendurados na única parede da casa em ruínas: como um último e único reduto do que soçobrou.

***

aprende que a vida é o jogo fútil em que brincas com a química da dor. digo uma verdade (e somente uma): nunca conheci livro tão belo como o Livro da Técnica.


Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

Roedel escreve cartas

sou capaz de vos escrever sobre a chuva que é mais omnipresente que deus, sobre Heróis mortos que só existem na minha cabeça - e são tantos estes companheiros da Verdadeira Estrada -, sobre a minha respiração sôfrega quando percebo que de não há nada de novo sob o Sol - e choro com o pobre céu que se contém para não se abater, ele também, sobre mim -, sobre as ruas sempre-tristes de todas as cidades do mundo - está escrito nos Livros da Técnica, mas eu aprendi por acaso: não importa onde vás, acredita! -, sobre ti, sobre como me sinto inútil - tanto que olvidei a verdadeira acepção da palavra utilidade -, sobre sobre sobre sobre. não sei se sobra alguma coisa se não a certeza de que não vou escrever sobre nada. e tendo escrito sobre nada, me retiro eu mesmo: Inútil.


Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

os teorizadores e os dias de não amanhecer

às vezes, é como se os teus suspiros abafassem toda a Teoria da Literatura que os cidadãos do mundo se foram entretendo a tecer: uns pela boca dos outros: uns pela boca dos outros, mais nada.

e isto, num murmúrio cálido, num momento de apagamento geral de todos os ventos do planeta - como lâmpadas de um mundo restrito e subterrâneo - túneis secretos que transportam homens e mulheres enlouquecidos pelos seus próprios amores, por debaixo das principais avenidas das principais cidades da europa, como labirintos de uma proibição mórbida: como dantes. mas os lugares recônditos que éramos agora já não são nada.

às vezes, é como se os carros fossem lágrimas metálicas - matéria-triste da vida que escoa pelo alcatrão nocturno e fracamente iluminado. mas, na verdade, nada disto importa quando te tenho ao lado e a noite é um t0 connosco lá dentro. e gatos.

às vezes, os meus sentimentos de inutilidade não são senão eles próprios inúteis habitantes da realidade anestésica que me permito viver quando não te tenho perto; e os olhos: qual espelho de um-mar-meu-teu-nosso de nele me ver sempre diferente, e de sempre diferente me devolver a mim mesmo nesta intermitência de olhares de amor.

Sábado, 25 de Fevereiro de 2012

a anatomia da decisão

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sei que podia apenas ''assistir-te''. daqui para a frente: sem mais complicações: sem mais silêncios mortais. mas há aqui uma ponte que a adolescência febril não me permite construir. para ser preciso não sei ao certo como lhe hei de chamar, mas anda à volta de "Ponte do Cumprimento da Disciplina". falta-me tanto. falta-me demais. serias um verdadeiro teste à conduta de ser; uma prova de que há um propósito para isto tudo; um jogo de lógica-irreal embebido em pesadelos ininterruptos, sei lá. teima em não chover e nem os braços da mãe me salvam disto tudo.

Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

conversas com Levi

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"a noite é a forma de disciplina mais negra que existe" disseste-me um dia.
e sim, a madrugada fria é um puzzle terrífico. sei sempre que não te vou encontrar por muito que cruze o Bairro. a culpa não é, efectivamente, minha: sei todos os trajectos de cor (embora reconheça um certo vício nos caminhos que tomo, mas a força das circunstâncias impede-me de demorar menos tempo); conheço cada atalho ao pormenor, cada sítio certo para atravessar a estrada e poupar meio segundo; mas mesmo assim, é-me impossível chegar-te a horas. é O Medo, que é outra coisa qualquer, que são muitas coisas. e nestas vidas de acordar ainda de noite, de sair cedo para enfrentar o caos dos loucos do Oriente, (de onde um dia partiremos), admito que me perco dos teus braços frágeis. esqueço-me de onde te encontrei e só me tenho a mim, posto à beira rio, a cismar intermitentemente na Verdade - como se fosse tudo um retrato qualquer, uma dimensão emoldurada de que me distancio a passos vagarosos. o Sol roça os contentores vazios e os grotescos braços mecânicos que elevam o metal-viajado até aos grandes cargueiros, hoje ausentes do horizonte. o Sol nasce e revela-nos as caras uns dos outros: espelhos de dignidades mórbidas que retratam o que nunca fomos e o que nunca chegaremos a ser.

Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

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nunca entendi se em mim moram histórias
ou outros mundos quaisquer.
nunca entendi,
(nem procuro entender),
se [isto] são só palavras que me assombram
ou resquícios de uma sutura infeliz;
se é uma compreensão qualquer das coisas;
e que coisas são estas?

os dias desenrolam-se
e o mundo acontece
como o oceano mascarado de mãe
a deitar-se nos braços da areia
do inverno presente.


Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

μικρό

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assombra-me sempre o reinado da noite.
assombra-me ao mesmo tempo que o fazem
as palavras inúteis e infantis de as sentir pequenas
e tortas e tanto mais que me envergonho de dizer.

e o pânico chega a ser tanto
que me atropelo em orgias de errante
pelos pecaminosos caminhos da consciência.
e este sabor terrivelmente amargo,
misto de culpa e de rendição
de me deitar às covas que vou cavando
na terra bruta que falta em engolir-me,
para que dela nasça uma sombra qualquer
de uma pessoa boa ou má,
que interesse e que importe existir,
que não seja um candeeiro aceso na noite,
iluminando um caminho virgem
que nunca foi dar a lado nenhum.


Domingo, 5 de Fevereiro de 2012

Roedel e a pausa no ordenar dos objectos

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o jazz irrompe pelos feixes de luz da lúcida solidão nocturna de todos os que se aventuram pelas ruas invernosas da cidade: digo-vos adeus. faz tempo que não chove: o frio confere uma alegria pútrida aos dias. é como se o Inverno fosse todo mentira, é como se faltasse a água para vir lavar o alcatrão negro dos fumos tóxicos dos veículos para nos livrar de sermos embalsamados vivos pela poluição-indiferente. sim, continuas aqui, ao monte, como os casacos pendurados atrás da porta que já dobram o número de cabides: uma tulha de cheiros ímpares e de saudades eternas que vão e que voltam sempre como o espírito jovem das nossas almas desnorteadas de qualquer amor-possível ou inteligível ou o que quer que o valha.

sabes quando as frases ficam longas, a pontuação se perde no caminho e deixas de saber o caminho para casa?

crio para mim um doce averno de sexo oferecido e tudo quanto ouço é o som do piano na sala, ao longe, a exigir mais do silêncio da casa, numa batalha eterna entre a luz e a escuridão, o fumo e carne, o sangue e a água! e quedo-me aqui no Leito das Sombras, apavorado com a tua silhueta desenhada a negro, a contemplar-me tão lá de cima, estampada nos contornos da luz branca. em pânico, abro o Livro da Técnica em busca de qualquer coisa que me ensine a lidar com assombrações destas. abro-o somente para descobrir que nunca soube o que ele era e que à noite, a espécie humana é assaltada por um relativismo-romântico-inebriante que adormece as almas e as toma numa loucura despreocupada.


Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2012

rever

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estes prenúncios de dor:
o deambular incessante e paranóico da gata pela casa,
o excesso de claridade reflectido em todas as paredes,
os gritos do vagabundo pousado nas prateleiras
que me aguarda para me contar vãos segredos,
a cabeça quente do Inverno frio:
estados de alma em emergência de sentir tudo
e de em tudo se perder embriagada
nas noites que deviam ser verão.

é como se o Inverno já não fosse triste:
é como se já não fosses voltar para casa.

o Jabez cabrão, aos berros
de já não lhe doer nada - ou sei lá.

e o Tejo que não tem sido sangue suficiente,
- escrever só mentalmente -
definhar entre as fotografias polariodianas
de beijos anónimos a vinho e ópios e químicos andróginos demais:
escravo podre e cão de uma anatomia de vida incontrolável,
braços e pernas e membros - tudo torto e fracturado!
cheiro a mentira como o diabo cheira ao fogo ardente!
e com ele, ardo na vastidão de ideias mórbidamente geniais
que me assaltam quando caminho só e absorto,
fitando a calçada tão esburacada
quanto o meu coração-casa-de-espelhos de uma cor qualquer.

Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

posto no lugar

| 0 comentários |

hoje sonhei que me davam uns quantos tiros no corpo. uns quantos: pescoço, do lado direito, enterrado por baixo da clavícula; língua, mesmo na ponta, com um buraco quente que me furou literalmente o músculo; coxa esquerda, espasmos e choques que me impediam de ficar de pé. deixei-me cair no chão feito pedaço de carne podre, abatido, perdido em fracasso e prestes a expirar - espírito ou sombra. e falavam à minha volta num tom verdadeiramente elevado que me fazia doer e estremecer os miolos. os enchapelados decidiam se me haviam de matar ou deixar assim. e tudo aquilo numa magnífica indecisão tremenda que me deixava ali a aguardar em agonia até quando o espírito de uma daquelas duas ou três almas mafiosas decidisse atirar à minha cabeça. em boa a verdade , deitado no chão, de lado, tive a sensação do cano ainda quente apontado à minha cabeça: como se desenhasse uma linha mágica no ar, um fino espectro de morte certa e absoluta. garanto-te: sentes o verdadeiro paladar da morte, o espasmo de a seguir teres desaparecido, o pânico genuíno e primitivo da consciência do teu último momento. o saber que ainda estás vivo antes mesmo de cair morto - tudo tão próximo do chão. e acordo para um morno início de tarde de inverno, depois da manhã sempre nocturna e falsa: vou ter pouco sol para conseguir colocar alguma coisa nova debaixo dele.

Quinta-feira, 12 de Janeiro de 2012

ainda existem cerca de 19.500 armas nucleares activas, o suficiente para destruir a Terra várias vezes

| 1 comentários |

é tão cedo e eu estou tão cansado. dói-me o mundo de dentro, mas dói-me em nojo de não saber senti-lo doer. dói-me este vazio embrutecido, este vazio total e absoluto de ser só pele mole a repousar sobre as mais variadas superfícies do meu quarto (e não são assim tantas!). dói-me tanto que nem chega a doer. e escrevo sobre isto como se fosse fácil, como se escrever fosse fácil; como se a dor fosse um capricho qualquer a que me proponho alegremente, emitindo ondas cheias dos meus sorrisos faustos: ondas de uma morte rústica: eu-qualquer perdido no Interior Remoto: e, abatida a carne pelas rochas lilases, pelo sol ardente, pelos bichos curiosos e pela noite fria, recordo com o auxílio da sôfrega memória os vários tipos frio que fui sentido ao longo da minha vida para perceber que todos eles foram e vieram - ímpares retratos ardentes de dor pendurados na única parede da casa em ruínas: como um último e único reduto do que soçobrou.

***

aprende que a vida é o jogo fútil em que brincas com a química da dor. digo uma verdade (e somente uma): nunca conheci livro tão belo como o Livro da Técnica.


Quarta-feira, 11 de Janeiro de 2012

Roedel escreve cartas

| 0 comentários |

sou capaz de vos escrever sobre a chuva que é mais omnipresente que deus, sobre Heróis mortos que só existem na minha cabeça - e são tantos estes companheiros da Verdadeira Estrada -, sobre a minha respiração sôfrega quando percebo que de não há nada de novo sob o Sol - e choro com o pobre céu que se contém para não se abater, ele também, sobre mim -, sobre as ruas sempre-tristes de todas as cidades do mundo - está escrito nos Livros da Técnica, mas eu aprendi por acaso: não importa onde vás, acredita! -, sobre ti, sobre como me sinto inútil - tanto que olvidei a verdadeira acepção da palavra utilidade -, sobre sobre sobre sobre. não sei se sobra alguma coisa se não a certeza de que não vou escrever sobre nada. e tendo escrito sobre nada, me retiro eu mesmo: Inútil.


Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

os teorizadores e os dias de não amanhecer

| 0 comentários |

às vezes, é como se os teus suspiros abafassem toda a Teoria da Literatura que os cidadãos do mundo se foram entretendo a tecer: uns pela boca dos outros: uns pela boca dos outros, mais nada.

e isto, num murmúrio cálido, num momento de apagamento geral de todos os ventos do planeta - como lâmpadas de um mundo restrito e subterrâneo - túneis secretos que transportam homens e mulheres enlouquecidos pelos seus próprios amores, por debaixo das principais avenidas das principais cidades da europa, como labirintos de uma proibição mórbida: como dantes. mas os lugares recônditos que éramos agora já não são nada.

às vezes, é como se os carros fossem lágrimas metálicas - matéria-triste da vida que escoa pelo alcatrão nocturno e fracamente iluminado. mas, na verdade, nada disto importa quando te tenho ao lado e a noite é um t0 connosco lá dentro. e gatos.

às vezes, os meus sentimentos de inutilidade não são senão eles próprios inúteis habitantes da realidade anestésica que me permito viver quando não te tenho perto; e os olhos: qual espelho de um-mar-meu-teu-nosso de nele me ver sempre diferente, e de sempre diferente me devolver a mim mesmo nesta intermitência de olhares de amor.